13 de março de 2020

Dispositivo é nova esperança na luta contra o câncer infantil

Engenheiro de São José, Joel de Oliveira Jr. cria equipamento que pode ajudar no tratamento de crianças com câncer

Câncer. A palavra chegou a cortar o ar da sala de estar do engenheiro Joel de Oliveira Jr., morador de São José dos Campos. Era uma sexta-feira quando o destino de seu pequeno Lucas, então com 1 ano de idade, chegou sem avisar trazendo uma das mais temidas doenças contemporâneas. O carocinho na barriga do menino sentido pela manhã em meio a um cafuné mudaria a vida de todos: pais, familiares e, quiçá, das crianças hoje em tratamento de câncer.

É que Lucas lutou bravamente por um ano e meio, mas não resistiu a doença. Mas, anos depois, trouxe ao seu pai, por meio de um sonho, uma solução que, espera-se, poderá ajudar seus amiguinhos que se encontram na mesma luta. Oliveira Jr. criou recentemente um dispositivo no formato de um band-aid que, colado na pele de uma criança, monitora a sua temperatura, enviando alertas sobre o estado de saúde do paciente em tempo real para pais, médicos e hospitais de câncer.

Em caso de febre, é possível agir de forma rápida, a tempo de combater intercorrências. “Lucas, meu segundo filho, era uma carinha maneiro para caramba. Descobrimos seu câncer às vésperas de seu aniversário de um ano. No dia que seria a festa, demos entrada no Gacc (Grupo de Assistência à Criança com Câncer)”, contou o engenheiro que fundou no ano passado a startup Luckie Tech – Tecnologia ajudando crianças com câncer.

“Foi um sentimento de luto. Nos revezávamos, eu e sua mãe, no hospital. E, três anos depois que ele morreu, passei a buscar algo que me preenchesse, até que sonhei com essa solução”, continuou. “Coloquei a ideia no papel e fui atrás de especialistas na área médica para saber se ela fazia sentido”.

A resposta foi imediata. O projeto era um reforço a esperança de dias melhores para a garotada em tratamento. “Então, fui atrás de universidades, empresas e hospitais, me uni a dois profissionais da área médica e de tecnologia para fazer isso acontecer”, disse Oliveira Jr.

ESTADO FEBRIL.

Segundo dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer), o câncer infantojuvenil já representa a primeira causa de morte (8% do total) por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos. Hoje, cerca de 80% das crianças e adolescentes acometidos da doença podem ser curados, se diagnosticados precocemente e tratados em centros especializados. Estima-se que, em 2020, ocorra 8.460 casos novos, sendo 4.310 do sexo masculino e 4.150 do sexo feminino.

“O câncer de adulto e o câncer de criança são muito diferentes e a forma de tratamento também tem diferenças. Mas a rigor, o tratamento para crianças e adultos obedece a mesma filosofia, usa-se a medicação para destruir a célula neoplásica. O principal efeito clinico imediato do tratamento, seja em adultos ou crianças, além de combater o câncer, é a queda da imunidade”, afirmou Marcelo Milone, médico oncologista pediátrico e paliativista, diretor clínico do

Hospital do Gacc.

E é justamente na queda da imunidade que ocorre o aparecimento de um processo infeccioso, que acarretará na alteração da temperatura normal do corpo – um caso considerado como urgência. “Assim, o início do tratamento antibacteriano deve ocorrer o mais rápido possível. O dispositivo tem como objetivo detectar essas alterações de temperatura, fazendo com que a equipe médica tenha uma atuação em tempo real”, explicou o especialista.

Hoje, pais com crianças em tratamento fazem a medição da temperatura. Com a novidade, o alerta será automático. “Minha ideia no futuro é que com os dados do prontuário e as informações sobre o estado de saúde da criança, a gente consiga tornar o tratamento ainda mais preciso por meio de inteligência artificial”, ressaltou o engenheiro.

DOSE DE FÉ.

Uma vez que o câncer tem um tratamento caro, que beira a R$ 50 mil por mês por criança, Oliveira Jr. defende que o dispositivo seja barato. “Não adianta fazermos algo que custe R$ 20 mil, R$ 10 mil… Tem que ser acessível”, afirmou ele. Por ora, os testes já estão marcados para serem feitos – no hospital do Gacc – uma vez que o dispositivo precisa também de ajustes e do estabelecimento de um padrão de atuação.

Oliveira Jr. não sabe dizer se o dispositivo teria salvado seu filho, mas afirma não pensar nisso.  “Lucas me deu uma luz. Hoje trabalho para as 12 mil crianças que lutam pela vida anualmente. É nelas que acordo pensando todos os dias. E estamos correndo contra o tempo”.

 

Paula Maria Prado | @paulamariaprado

Fonte: O vale

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